Ocidentalização do Oriente

Professores avaliam retratos de imperador romano feitos por candidatos a vaga em universidade de Seul [Folha Online]

Professores avaliam retratos de imperador romano feitos por candidatos a vaga em universidade de Seul (Folha Online)

A história da Coréia parece ser muito interessante. Tanto pela sua antiguidade que, como no caso da história de outras nações orientais, é muito desconhecida por nós, no Brasil, no Ocidente etc; bem como pela sua história dos tempos de hoje, sua realidade social. A história antiga da Coréia é mesmo muito obscura para mim. O pouco que eu sei é que a península da Coréia, desde séculos atrás, era ocupada por uma etnia, os coreanos, que conformavam uma entidade política coincidente com o território da península. Até hoje a população coreana é uma das mais homogêneas etnicamente e linguisticamente do mundo. No entanto, há pouco tempo (umas seis décadas para uma história de séculos – senão milênios – é realmente muito pouco) algumas mudanças vêm transformando radicalmente essa história.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a península da Coréia foi divida em duas “áreas de influência” e três anos depois foram instalados um governo comunista no norte e um governo capitalista no sul. Em 1950 as duas partes entraram em guerra uma contra a outra, sul apoiado pelos EUA e norte pela URSS. O conflito levou a um impasse que foi resolvido desmilitarizando-se a fronteira e deixando cada governo cuidando de seu território, cada qual com uma orientação política e ideológica e tomando rumos econômicos completamente diferentes.

O atual regime comunista norte-coreano, com seus ares de fanatismo personalista (muito alardeado e criticado na imprensa mundial), com sua incapacidade de organizar a economia do país e com seu isolamento do resto do mundo leva seu país a um estado de penúria lamentável. O regime capitalista sul-coreano, por sua vez, é celebrado no Ocidente como exemplo de empenho de um país periférico em progredir no mundo capitalista. E o segredo da Coréia do Sul seria seu sistema educacional.

No entanto, essas “virtudes”, constantemente destacadas e elogiadas pela mídia ocidental, não são necessariamente tão virtuosas assim, e acredito que algumas críticas seriam cabíveis. Inclusive porque não é raro que alguém invoque o “exemplo” sul-coreano como algo a ser seguido pelo Brasil. Obviamente não deve haver quem deseje que a economia de seu país seja fraca, incapaz de atender às necessidades de seus cidadãos. Mesmo assim devemos nos questionar se é realmente bom educar crianças de 10 anos fazendo-as competirem entre si, em lugar de aprenderem a cooperarem entre si. Ensiná-las desde a 3ª série como se comportar numa entrevista de emprego; ensinar o inglês, o alemão e mais uns vários idiomas, ensinar a programação de softwares de computador e história… Uma jornada de 15 horas diárias de estudo pode dar conta de fazer com que a criança aprenda tudo o que é necessário à sua formação para que possa competir por uma vaga na faculdade. Talvez seja o suficiente para transformar também a criança em algum tipo de adulto neurótico e provavelmente frustado caso sua vida não seja tão “bem-sucedida” como querem fazer parecer possível.

E não é só isso! Essa lógica de hiper-produtividade nos indivíduos está, sem dúvida, transformando sociedades no mundo todo, e a Coréia do Sul também. O problema é que essas mudanças na educação tendo apenas esses critérios em vista obecede muito mais a interesses exógenos do que qualquer interesse social existente a princípio. Por mais que o modelo de educação seja eficiente no sentido de treinar mão-de-obra especializada, melhorando índices econômicos e aumentando o consumo da população, sempre temos de questionar que caminho queremos seguir, quais estão disponíveis e quais outros podemos descobrir.

natal_aquario_seul

korean_babes_in_miniskirtsVoltando à Coréia do Sul, aquele país fez sua “opção”. Ou talvez não. Quais seriam suas opções quando o país – antes uma única Coréia – se tornou palco de uma disputa entre os EUA e a URSS, levando o sul a se separar do norte e estar sob “proteção” norte-americana? Naquele pedaço explosivo do mundo polarizado de então, o dedo pesado do Tio Sam redesenhou vários aspectos do país, tentando reproduzir a sua concepção de sociedade, com seus valores, sua estética e sua cultura.

A pintura de imperadores romanos, nesse sentido, relaciona-se intrinsecamente com as mini-saias e os cortes de cabelos das modelos coreanas, assim como se enquadram nessa lógica o mergulhador fantasiado de Papai Noel num aquário em Seul. Seja com seu cristianismo, com suas idéias políticas e econômicas ou mesmo com suas formas estéticas, o mundo ocidental vem há séculos impondo, a partir de algum centro de poder, a sua visão da história a outros povos e culturas.

Data da última edição deste texto: 17/05/2010

Comentários

Há um comentário em“ Ocidentalização do Oriente”
  1. Patty disse:

    Oii Gustavo
    terça feira tinha escrito um comentário realmente relevante… grande… só q a pagina expirou na hora de mandar ¬¬
    mas vamos lá… vou tentar de novo:
    já tinha ouvido falar da escola da coreia do sul, da “eficiencia” do ensino… mas nunca tinha procurado saber como era…mas imaginava q fosse algo ocidentalizante… para render tantos elogios, é engraçado q as vezes se fala em preservação da cultura etc etc, mas qnd a cultura local eh colocada, normalmente é como algo exótico, para ser visto, talvez com um certo “charme”, mas não como algo para ser vivenciado, tipow “aquilo eh engraçadinho, mas pra viver é o ocidente”…
    queria ver o q o jornal disse sobre os romanos… não duvido q tenha sido algum tipo de elogio…
    (alias vc lê demais a folha ahhah, daqui a pouco vc fica “culto” )
    quanto a questão da competição é realmente complicado pensar que as crianças são postas desde tão cedo a competir e ganhar… e isso tráz consquencias graves, mesmo , ou talvez até principalmente qnd essa competição não é tão voltada para os estudos… como a gente vê nos EUA, ou mesmo no Brasil, onde a educação é deficitária, e mesmo assim cria-se uma divisão entre “winners” e “loseers”, com padrões de consumo, de beleza , etc, e produzindo em série adolescentes padronizados e inseguros

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