Diálogo do espírito consigo próprio
- O que você quer de mim? – pergunta o espírito a si próprio.
- Nada – ele lhe responde. – O que haveria de querer? Apenas te acompanho. Afinal, não poderia ser de outra forma.
- Sua presença me deixa confuso…
- É mesmo? E como acha que você estaria se eu não estivesse por aqui?
- Não sei. Não posso conceber.
- Claro que não. E tem mais: a culpa disso tudo não é minha. Foi você quem me criou, e não o contrário.
- Certo… e quando tudo isso começou?
- Não sei. Se você não sabe, como eu poderia saber? Você não me deixou nenhum registro, nada escrito, nada gravado. Mas pare de se preocupar com isso. Como poderíamos saber desde o começo onde as coisas iriam dar? Pare de se inquietar com essa questão.
- Não consigo. E isso me causa muita angústia!
- Então terá de aprender a conviver com ela. Não creio que essa dúvida irá se esclarecer algum dia. Talvez, para encontrar a resposta, seja necessário se esquecer da pergunta.
- Não parece fácil. Você sabe de alguém que tenha conseguido?
- De fato, não é nada fácil. Há alguns poucos que conseguiram, depois de terem feito a tal pergunta. Entretanto, se você reparar bem, os que fizeram a tal pergunta também são poucos se comparados àqueles que nunca a fizeram.
- E você acha que essas pessoas podem ser felizes?
- Sim, podem. E o são! Pode ser tristes e também o são! Posso me reconhecer em sua felicidade, bem como na sua tristeza. Não me reconheço apenas naqueles que nada esperam; e ao lado desses eu não posso estar.
- Pelo que posso entender, então, você tem responsabilidade sobre a felicidade e sobre a tristeza das pessoas. A humanidade estaria então presa a essa situação? Como poderíamos nos libertar disso?
- Sinceramente eu não sei. Nunca compreendi muito bem essa necessidade de liberdade. É por causa dela que vejo as pessoas encontrando a felicidade, mas é também por causa dela que vejo as pessoas encontrando a tristeza. Até onde me lembro, parece que sempre foi assim.
- Me parece que ao buscar essa tal liberdade, acabamos construindo nossa própria prisão. Essa visão me deixa desesperado!
- Quanto a isso nada posso fazer. E sinto que seu desespero me impede de me reconhecer em você. Preciso ir agora. Desejo realmente que não sofra tanto…
- Adeus! Tentarei não sofrer… Mas isso me parece tão difícil de se conseguir sozinho…




do diálogo (simulacro real de desassossego) de dois amigos :
- Você é muito exigente
- Como assim? nunca exigi nada de ninguém!
- Por isso mesmo, nunca exigiu nada de ninguém e exige que não exijam nada de você