Do governo: o controle da informação

Mapa da internet

Mapa da internet

Recentemente li um livro do matemático norte-americano Norbert Wiener, “Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos”. Neste livro o autor procura demonstrar ao leigo de então — essa segunda edição data de 1954 — os avanços da ciência cibernética e suas implicações na vida dos seres humanos. A leitura desse livro contribuiu para que várias idéias acerca do problema da liberdade humana se organizassem melhor na minha compreensão da realidade.

A palavra “cibernética” vem do grego kubernetes, que significa “piloto” e que, segundo Wiener, derivou nossa palavra “governador”. A tese do livro é que uma compreensão da sociedade somente é possível se se compreender da sociedade as “facilidades de comunicação de que disponha”. Também quer demonstrar que no futuro — o livro já tem 54 anos, mas para a história podemos considerá-lo novo — o “desenvolvimento dessas mensagens e facilidades de comunicação, as mensagens entre o homem e as máquinas, entre as máquinas e o homem, e entre a máquina e a máquina estão destinadasa desempenhar papel cada vez mais importante”. Na época em que o livro foi escrito, a chamada Cibernética dava seus primeiros passos, e sua primeira grande realização datava de uns poucos anos antes, durante a Segunda Guerra Mundial: o advento do radar que, aliado ao processamento de seus dados por uma “máquina computadora”, podia controlar os disparos e o movimento das baterias anti-aéreas, necessárias para a defesa do espaço aéreo inglês contra o ataque dos aviões da Alemanha nazista.

De acordo com o que diz N. Wiener, existem dois padrões de comportamento comunicativo: rigidez e aprendizagem. O padrão rígido supõe que um ser tem seu comportamento pré-determinado pela sua natureza, enquanto a aprendizagem possibilita ao ser modificar seu comportamento de acordo com a experiência. As sociedades de insetos, por exemplo, têm em cada indivíduo um papel estabelecido em função de suas características fisiológicas. Uma formiga rainha, assim como uma formiga operária, são o que são porque sua natureza assim determina. Por outro lado, é da natureza do ser humano o aprendizado, ou seja, a capacidade de se adaptar a novas condições do meio ambiente e assim aperfeiçoar suas funções. A implicação disso é que concepções de sociedade baseadas na idéia de que os indivíduos devam desempenhar funções pré-estabelecidas resultam num Estado fascista, “no qual, idealmente, cada indivíduo é condicionado desde o berço para sua devida ocupação; no qual dirigentes são perpetuamente dirigentes, soldados perpetuamente soldados, o campônio nunca é mais que campônio e o operário está condenado a ser operário”. Nessa linha de raciocínio, o autor critica o credo da supremacia branca vigente em seu país (lembremos que nessa época os negros ainda sequer tinham igualdade de direitos civis nos EUA) e de forma magistral faz uma crítica à falsa democracia estabelecida nos EUA de então.

Mas o que tudo isso tem a ver com Cibernética?

Segundo Wiener, “a Cibernética adota a concepção de que a estrutura da máquina ou organismo é um índice do desempenh que dela se pode esperar”. E mais adiante diz que é “tão natural, para uma sociedade humana, fundar-se no aprendizado, quanto o é, para uma sociedade de formigas, fundar-se num padrão herdado”. Essas questões demonstram que a ciência Cibernética não deve ser tratada como uma coisa de cientistas malucos ou nerds que ficam escovando bits, mas como uma ciência que aborda problemas essencialmente humanos e cujo desenvolvimento pode ajudar a humanizar a vida social.

A Cibernética se preocupa fundamentalmente com a informação; poderíamos dizer que esse é o principal recurso de trabalho. As informações são essenciais para o desenvolvimento da vida humana. É na comunicação que a informação se realiza. Se observarmos bem, as informações estão em todo lugar, bastando que haja algum receptor para elas. A maneira como essas informações são recebidas e processadas, e posteriormente, como poderão determinar futuramente o padrão de comportamento, quer de uma máquina, quer de um ser humano, configura-se nuam questão de Cibernética. Como sustenta a tese do livro, a compreensão da socidade passa pela compreensão das facilidades de comunicação de que sociedade dispõe. Isso se evidencia na forma como dependiam os antigos impérios, como o Romano ou o Persa, de suas estradas, que serviam para manter a unidade do império, não apenas pelo deslocamento de forças militares, mas também para o tráfego de informações. Levando isso em consideração, o autor, pensando no quadro das comunicações mundiais no momento em que está escrevendo, facilitadas por sistemas de rádiodifusão e redes de transporte aéreo, deduz que o Estado Mundial seja inevitável.

A clarividência de Norbert Wiener aqui é surpreendente, uma vez que em pleno mundo bipolarizado da Guerra Fria, no qual as informações ainda circulavam de forma muito restrita, ele já podia antever o processo a que hoje chamamos globalização. A partir das questões, tanto as técnicas quanto as filosóficas, levantadas nesse livro, podemos fazer uma reflexão crítica acerca do processo de globalização em seu atual estágio, potencializado por aquela que talvez seja a maior realização da Cibernética: a rede mundial de computadores — a Internet. Diz o autor que “Informação semanticamente significativa, na máquina como no homem, é a informação que chega a um mecanismo ativador no sistema que a recebe, a despeito dos esforços do homem e/ou Natureza para corrompê-la. Do ponto de vista da Cibernética, a semântica define a extensão do significado e lhe controla a perda num sitema de comunicações”.

Se nos primódios da Cibernética e da computação eletrônica, os primeiros grandes avanços que verificamos foi o controle do comportamento — e aperfeiçoamento deste — de equipamentos bélicos com base no processamento automático de dados obtidos por radar, atualmente, como desenvolvimento da web naquilo que se convencionou chamar WEB 2.0, que possibilita que na rede as informações sejam semanticamente organizadas por sistemas de busca inteligentes — o Google, principalmente — podemos vislumbrar um impacto social muito maior.

No turbulento período da Guerra Fria, a imediata e mais fundamental aplicação dos conhecimentos em Cibernética era a indústria bélica; e creio que não seja necessário, porque evidente, explicar os motivos disso. Ao mesmo tempo, a informação significativa era vista muitas vezes como sendo de natureza sigilosa e restrita, um vez que não se queria que o “outro lado” soubesse daquilo que se sabe “deste lado”.

O que teria mudado na Cibernética e no “governo do mundo” nos tempo atuais?

Em primeiro lugar, o fato de que a alta complexidade das comunicações máquina-máquina parecem mais do que nunca coordenadas por padrões semânticos inteligíveis às pessoas comuns, ou seja, nos limites, nas extremidades das redes eletrônicas de comunicações, as informações que entram e saem expressam desejos e necessidades de pessoas simples e normais. Uma vez que vivemos numa época em que a hegemonia do capitalismo consumista é praticamente mundial, exceto por uns poucos focos isolados de resistência, o que hoje impulsiona com mais força o desenvolvimento das comunicações eletrônicas são as amplas possibilidades de estímulo ao consumo. No entanto, creio que ainda podemos vislumbrar outros caminhos, e acreditar que a Cibernética, no seu desenvolvimento e na sua inegável importância, poderá contribuir para uma nova forma de relacionamento entre os seres humanos; uma nova forma que supere a forma ainda vigente, baseada em valores que não passam de resquícios deformados de um tempo que deve ser visto como passado, justamente o tempo em que Wiener escrevia seu “The human use of human beings”:

“Escrevo este livro principalmente para norte-americanos, em cujo meio ambiente os problemas de informação serão avaliados de acordo com um critério padrão norte-americano: como mercadoria, uma coisa que vale pelo que puder render no mercado livre. Esta é a doutrina oficial de uma ortodoxia que se torna cada vez mais perigoso questionar, para quem resida nos Estados Unidos. Talvez valha a pena acentuar que ela não representa uma base universal de valores humanos; que não corresponde nem à doutrina da Igreja, que busca a salvação da alma humana, nem à do Marxismo, que estima uma sociedade pelo que ela realizou de certos ideais específicos de bem-estar humano. O destino da informação, no mundo tipicamente norte-americano, é tornar-se algo que possa ser comprado ou vendido”.

Como poderíamos, então, nos opor a essa tendência, levando em conta que ela vem há décadas, desde que o livro foi publicado, se fortalecendo? Ora, a forma de consumo de mercadorias no mundo capitalista está estreitamente ligada à divisão da sociedade em classes. Vários fatores hoje determinam essa divisão: vão além e são muito mais complexas do que a clássica divisão burguês-dono das máquinas de um lado e operário-vendedor de força de trabalho de outro lado. Há outros fatores a hierarquizar as sociedades metropolizadas do capitalismo atual, mas duas que creio que seja importante destacar são: a informação — seus aspectos quantitativos e qualitativos — de que um indivíduo dispõe e os bens de consumo a que ele tem acesso. Sendo assim, o plano da política torna-se o palco central da questão. Pois embora a rede possibilite o livre tráfego de informações, sabemos que estas, em sua maior parte, são “protegidas” por direitos de propriedade intelectual que dificultam o acesso a elas. Seria, do ponto de vista da técnica de que dispomos atualmente, perfeitamente possível que toda a produção acadêmica e cultural fosse disponibilizada na rede sob domínio público, podendo ser livremente acessada por quem quisesse e estivesse diante de um computador ligado à Internet. Entretanto, vigora ainda a visão de que o conhecimento deve ser privado e restrito; e a inalienabilidade dos direitos do autor acaba podendo muito bem ser deixada de lado em favor das editoras daqueles que dominam o mercado editorial. Resultam disso situações bizarras, como grandes lojas virtuais de livros impressos desbancarem pequenas livrarias físicas sem, no entanto, oferecer uma alternativa realmente melhor, mais barata e mais democrática.

Enfim, se o impacto da Cibernética na vida e na organização do trabalho social foi tão grande que hoje sabemos bem quais são as conseqüências boas e ruins da mecanização e da automatização, talvez possamos atenuar o lado ruim desse impacto apenas hoje, quando a Cibernética penetra de forma significativa a vida cotidiana das pessoas, reestruturando os valores sociais e abrindo um campo de geração e troca de valores bastante diverso da forma anteriormente predominante, qual seja, a produção fabril. Se formos capazes de valorizar devidamente o conhecimento, a informação e a produção cultural como ela devidamente merece, ou seja, possibilitando oa mais livre acesso a elas e, ao mesmo tempo, utilizar a automatização de processos para poder, pela primeira vez na história da humanidade, liberar das cargas excessivas de trabalho alienante os seres humanos e assim possibilitar-lhes um maior acesso à cultura e ao conhecimento. Quando houvermos realizado tudo isso, aí sim poderemos dizer que colocamos em prática tudo aquilo que o gênio humano é capaz de conceber. Espero, assim como Norbert Wiener, “que as novas modalidades sejam usadas para benefício do Homem, para incremento de seu lazes e enriquecimento de sua vida espiritual, em vez de o ser apenas por amor do lucro e pela adoração da máquina como um novo bezerro de ouro”.

Links

Data da última edição deste texto: 17/05/2010

Comentários

Há um comentário em“ Do governo: o controle da informação”
  1. Cezar Sevilhano disse:

    Cara, parabéns pelo texto! Sintetizou aquilo que estávamos falando.

    Esse tema é muito interessante, o fato da cibernética ter sido empregada primeiramente nas tecnologias de guerra e depois ter sido colocada a serviço da sistema capitalista é uma consequência esperada. Mas o engraçado é que hoje parece que o oposto acontece, os avanços na tecnologia são impulsionadas por essa necessidade de consumo que você descreveu e não tão dependentes dos avanços na industria bélica. E os consumidores não percebem a quantidade de informação alienada que eles se permitem receber. Estes dias eu estava vendo a lógica por trás do SPAM mail… parece que a grande maioria dessas mensagens não surte efeito nenhum nos possíveis clientes, mas cerca de 0,2% daqueles que recebem um email “HAVE BIG DICK TODAY! PILLS VERY GOOD!” acabam comprando um produto que nunca comprariam se não fossem as facilidades das lojas virtuais. E como mandar SPAM é praticamente gratuito e não infringe nenhuma lei real, os charlatões programam um computador para continuar mandando estes anúncios contando com o lucro destes 0,2%. São os efeitos bizarros da cibernética.

    Outro ponto, a questão do controle da informação. Podemos ver a internet como uma terra de ninguém? Claro que existem os domínios nacionais, (.us .br .pt) mas a internet criou uma classe de “piratas” do dia para a noite, um submundo virtual onde qualquer um pode baixar discos e filmes completos, infringindo direitos de propriedade, transformando qualquer tipo de mídia possível de ser digitalizada em “domínio público”. Mas esta não é uma solução viável, certo? É aquilo que falamos, software livre, essa é uma alternativa, o desenvolvimento de mais programas Open Source é um meio de não depender das grandes corporações e nem apelar para a pirataria. (Não que eu não use, 99,9% dos meus jogos eu baixo da net)

    É isso aí cara, depois vamos trocar um idéia para escrever alguma coisa sobre as sociedades virtuais, que também rende um texto bom e talvez alguma coisa sobre aquela idéia da portabilidade da tecnologia atual.

Comente este texto