A criação do ser humano
O ser humano não existe a priori. A definição de ser humano, ou seja, a designação de indivíduos de uma espécie de forma de vida como “seres humanos” não é um fato histórico acabado. O ser humano enquanto conceito emerge para o campo da realidade no desenvolvimento de um processo que anima esses indivíduos vivos (seres vivos) com um movimento que chamamos subjetividade. A subjetividade deve ser entendida como atividade criativa, resultado de um complexo sistema de interação de matéria e energia que compõe imagens que refletem – sempre de forma imperfeita – o universo objetivo.
A composição dessas imagens vai criando e complexificando, em seu processo de existência, um sistema, o qual ele próprio determina, num eterno devir, as possibilidades de sua reprodução. Se concebemos o universo como objeto de nosso pensamento, isso somente é possível devido ao fato de dispormos de um conjunto de conceitos assimilados no desenrolar da nossa vida. O processo biológico, que de acordo com interações determinadas por todo um desenvolvimento de seres replicantes, é a base sobre a qual se desenvolvem os conceitos, as ideias, resultantes das interações neurais que ocorrem como fluxo de energia inter-neuronal dentro de um indivíduo, fluxo esse que também e capaz de transformar constantemente a matéria e, por uma variedade de formas, acabam por interferir nos fluxos de energia neural em outros indivíduos, gerando assim uma cadeia de ações e reações que conectam os múltiplos fluxos energéticos subjetivos.
A linguagem humana
Desses processos interativos desenvolvem-se as múltiplas formas de linguagem humana, o que acaba por permitir a emergência do universo como ideia. Conceber o universo como ideia não deve significar que tudo que existe derivaria de uma “Ideia” absoluta primordial, que sempre teria existido em algum plano metafísico. Conceber o universo como idéia resulta da conclusão de que o universo, como entidade da realidade, não pode existir senão com base em conceitos derivados do processo de desenvolvimento da linguagem, que coloca à disposição das subjetividades dos seres humanos a criação de imagens representativas do meio onde se desenrolam suas vidas. As formas como se dispõe a matéria e como flui a energia nesse meio está estreitamente relacionada com a forma das imagens criadas, e constantemente atualizadas, que representam esse meio.
Como resultado desses processos interativos, forma-se e reforma-se o sistema de conceitos que definem o que é o universo. Esses conceitos, no entanto, são apreendidos e reproduzidos por ações subjetivas, e se entendemos subjetividades como entidades criativas, que dispõem de algum grau de variação de possibilidades de escolhas, chegamos a conclusão de que não há apenas um universo, mas universos. As formas que esses universos podem tomar são tão variadas quanto a variedade de seres humanos puderem emergir e interagir no meio ambiente, cujas formas que este pode assumir são determinadas por processos relativos às dimensões de espaço e tempo (dimensões físicas porém também apreendidas subjetivamente, porém de acordo com a estrutura fisiológica dos sujeitos humanos).
A verdade do universo?
A partir desta caracterização podemos refletir sobre a questão historicamente presente na filosofia ocidental da busca do conhecimento de uma verdade acerca do universo (concebido como uno mesmo), verdade essa – lembremos que a verdade é também uma idealização – que acaba por determinar a forma ideal de ser humano. Por meio de relações de poder consentidas ou impostas, esse ideal de ser humano controla a vida e, com diferentes graus de sucesso, determina seus rumos.
A crença de que pelo controle consciente da razão (pensemos em razão como essa atividade neural que permite aos seres da espécie humana abstrair da materialidade concreta e imediata no processo de interação com o meio ambiente, agindo de acordo com as imagens que a abstração é capaz de criar, dirigindo a ação concreta a partir dos fins pré-concebidos pelo pensamento) a humanidade caminharia para um estado de perfeição, no qual o conhecimento das “leis” do universo possibilitariam a existência do ser humano pleno de liberdade, resulta de uma concepção de universo que não é senão uma manifestação histórica específica de uma forma de pensamento que tem suas raízes filosóficas no pensamento político da Roma Antiga e no pensamento religioso judaico-cristão.
Modernidade e universalismo
O processo histórico que convencionou-se chamar de modernidade caracteriza-se pela expansão global de poder ordenado segundo desenvolvimentos sociais e econômicos referenciados nessas heranças culturais, criando a entidade histórica designada Ocidente. Entretanto, o desenrolar desse processo historico cria uma base de interações humanas que nos permite perceber as falhas dessa concepção universalista baseada numa concepção de verdade (por acreditar que esta pode ser absolutamente objetivada), por não compreender que a verdade não pode ser expressa numa definição perfeita, e que o conhecimento da verdade consiste muito mais em sentir o movimento que aponta para o devir do que encontrar o ponto final da história. Como processo resultante do surgimento e desenvolvimento da vida num ponto específico do universo (aquilo que acreditamos conhecer dele, segundo conceitos mais ou menos compartilhados), a história – aquilo que se fez segundo aquilo que se conta – nos ensina que existe uma natureza humana, algo que poderia definir esse ser vivo dotado de ação subjetiva, é a multiplicidade de formas que os indivíduos e sociedades dessa espécie podem assumir. O potencial criativo desses sujeitos é o que proporciona o potencial de liberdade – e a liberdade pressupõe multiplicidade de escolha para o caminho que a vida segue.
A busca da verdade deve se guiar pela compreensão do processo que rege a existência do próprio fenômeno da vida, o equilíbrio na relação entre os seres e os meios. Se a busca da verdade por meio da razão engana o pensamento, colocando-o como algo externo à natureza, a crítica a esse pensamento deve agora nos guiar de volta, ou seja, nos fazer compreender que aquilo que iguala os seres humanos é, ironicamente, o processo que nos diferencia: a vida.




Gustavo, ótimo texto.
Hoje, saí de metrô com o livro do Gramsci, “Concepção dialética da história”não me pergunte por que, debaixo do braço.
Lá pelas tantas, ele diz que vivemos em concepções de mundo.
E que estas concepções têm raízes históricas.
Só o estudo das concepções e a clareza do duelo entre elas nos daria a possibilidade de assumir uma nova concepção, além do senso comum, mas algo em torno do bom senso crítico e assumido.
Isso bate bastante com o que você diz sobre os conceitos, a verdade.
Já andando pela cidade, vi a importância do estudo histórico da filosofia para acrescentar algumas gotas a mais nessa nossa jornada.
Gostei do seu comentário no meu blog e deste post aqui.
Vamos trocar mais?
Forte abraço,
Nepô.
Vamos trocar, com certeza, camarada.
Ocupar o espaço informacional da web com história e filosofia é fundamental se desejamos extrair algo de humano dessa nova revolução tecnológica.
Atualiza teu blog!!!!
Salve.
Assim que sobrar um tempo vou colocar produzir um texto novo, mano.
Olá Gustavo, valeu pelo comment no site do PP.
Curti seu blog, de verdade.