O negócio do conhecimento
Como propõe Peter Burke, os fenômenos da atualmente chamada sociedade da informação não são assim tão novos. Em seu livro “Uma História Social do Conhecimento: de Gutemberg a Diderot”, o historiador se propõe a pensar o conhecimento sob várias perspectivas: sociológica, geográfica, antropológica, política, econômica e literária. Isso sem deixar de lado a responsabilidade de refletir e problematizar filosoficamente o tema.
O capítulo sétimo desse livro é o objeto deste texto, cuja proposta é divulgar, ainda que de forma superficial, as contribuições de Peter Burke para o conhecimento da história do conhecimento, mas do conhecimento como um bem econômico dotado de valor; e de como os meios técnicos de produção co conhecimento se relacionam a seu caráter.
Nos dias atuais é comum observarmos com espanto e admiração o que nos permite realizar os meios técnicos de comunicação de que dispomos. Se por um lado há humanistas que vêem a internet como uma ferramenta que oferece um excelente potencial de difusão mais livre do conhecimento, e vêem nisso algo de positivo para a liberdade humana; por outro lado há os oportunistas ambiciosos ávidos por lucro e poder pessoal, buscando explorar ao máximo tais técnicas de um modo privatista e excludente. As informações que Peter Burke nos traz em sua obra podem soar bastante interessantes para quem se interessa por fenômenos como o computador pessoal e a comunicação em redes sociais virtuais.
O conhecimento é um dom de Deus, e por isso não pode ser vendido.
Aprender é um ofício.
Com essas epígrafes o autor inicia o capítulo intitulado “A Comercialização do Conhecimento: o Mercado e a Impressão Gráfica”. A primeira frase trata-se de um aforismo medieval, enquanto a segunda é atribuída a Samuel Johnson. Segundo o autor, o fato de vivermos numa sociedade onde significativa parte da nossa economia se basear na produção e venda de informações leva a se afirmar que vivemos numa sociedade da informação. Na nossa sociedade mecanizada, as máquinas são como “conhecimento congelado” e o próprio desenvolvimento econômico pode ser compreendido como um “processo de conhecimento”.
Uma vez que o desenvolvimento econômico baseado em formas de explorar a propriedade privada é uma das características essenciais da modernização e do desenvolvimento do capital, a questão da propriedade intelectual é fundamental no texto. A visão utilitarista é manifesta: o Copyright Act britânico de 1709 pretendia incentivar “os homens de cultura a escreverem livros úteis”. Já Cícero, na Roma antiga, chegou mesmo a formular a idéia de conhecimento como propriedade (possessio). O termo latino plagiarius designava alguém que roubava um escravo, mas foi aplicado pelo poeta Marcial ao roubo literário. O autor cita também o caso de uma disputa jurídica do século XVI, em 1553, em que um impressor alemão se defendeu da acusação de plágio dizendo que a difusão do conhecimento era um “benefício para a humanidade” — tratava-se sobre o uso de entalhes de madeira para ilustrar um tratado sobre ervas.
Esse tipo de atitude mais individualista em relação ao conhecimento foi resultado, segundo o autor, de uma tendência “estimulada pela possibilidade da impressão, que ajudou ao mesmo tempo a fixar e a difundir os textos”. Trata-se de uma tendência diversa daqeula mais comum quando o conhecimento escrito era transmitido através da escrita caligráfica, fazendo que houvesse diferentes versões de uma obra, cada qual com toques pessoais dos monges copistas, cujo ofício era escrever manualmente páginas e mais páginas de escrituras seculares.
A forma jurídica baseada em privilégios e monopólios, característica do período a que convencionou-se chamar mercantilismo, determinou também, nos começos da modernidade, a lógica da produção do conhecimento.
Papas, imperadores e reis concediam privilégios, em outras palavras, monopólios temporários ou permanentes, para proteger certos textos, impressores, gêneros ou mesmo novas fontes tipográficas. O imperador Carlos V, por exemplo, emitiu 41 cartas de proteção (Schutzbriefe) desse tipo no curso de seu longo reinado. as leis de direito autoral do século XVIII foram um desenvolvimento desse sistema mais antigo de privilégios.
No entanto, essa lógica desde cedo não se restringiu à posse e produção de livros, mas se estendia a outros campos do conhecimento, da cultura formal e das artes. Peter Burke cita fatos interessantes verificados na Veneza renascentista: registro de patente de navio, direito autoral sobre obra historiográfica e sobre as obras de Ticiano (um artista que temia ver suas obras sendo copiadas).
A preponderância veneziana nesse tipo de comportamento social obviamente não é mero acaso: tratava-se de uma cidade com forte tradição comercial, podendo ser considerada uma das propulsoras do comércio marítimo e sistema bancário modernos. Mesmo as técnicas industriais de Veneza eram objeto de interesse de espiões e informantes estrangeiros.
Percebe-se que essa lógica de tratamento de conhecimento, artes e saberes como propriedade privada decorre de relações de produção onde têm mais prestígio e poder social aqueles que exercem domínio sobre os bens com maior potencial de produção de valor: sejam legiões de homens armados ou treinados para o trabalho, sejam terras (propriedades fundiárias), sejam meios de transporte e comércio, sejam informações ou conhecimentos essenciais à realização do poder.
Diz P. Burke:
A cultura mercantil era cultura escrita e já o era na Idade Média. [...] As rotas de comércio eram rotas de papel e os fluxos de comércio dependiam dos fluxos de informação.
Notamos como desenvolvimento pelo extremo interesse em informação é um processo aliado ao desenvolvimento pelo extremo interesse em lucro, exercício de poder e de controle:
os paralelos mais próximos ao interesse da VOC pelas estatísticas não vêm de companhias rivais, mas da Igreja católica e do Estado centralizado.
As bolsas de valores, por exemplo, começam a surgir já no século XV (a primeira citada por Burke é a bolsa de Bruges, inaugurada em 1409); e surgirão tantas outras ao longo dos séculos XVI, XVII. Já no século XVIII, em 1720, houve uma grande quebra financeira conhecida como “South Sea Bubble” (Bolha do Mar do Sul), relacionada à especulação no comércio com o Pacífico sul-americano.
Nesse contexto, a atividade de impressor era ao mesmo tempo caracterizada pela busca de lucros quanto pela fé — ou pela fé na razão.
Alguns impressores estavam pessoalmente comprometidos com movimento intelectuais como o humanismo, a Reforma Protestante, ou o Iluminismo. Outros, porém, poderiam ser mais bem designados como mercenários, trabalhando igualmente para católicos e protestantes durante as guerras religiosas.
O Iluminismo era vista necessariamente como um negócio para alguns impressores: obras de referência, textos clássicos e traduções eram encomendados como mercadorias.
É no século XVII, inclusive, que surge a prática de anúncios de produtos e serviços em meios impressos. desde eventos de entretenimento e cultura até pílulas e atendimento médico verificavam-se na época. E também anúncios de outros livros e revistas comercializados pelo mesmo impressor. Nesse processo:
À medida que aumentava o lucro potencial, aumentava a urgência em proteger a propriedade literária e intelectual por meio de leis gerais. [...] Na França, leis semelhantes às inglesas foram aprovadas depois da Revolução, em 1791 e 1793.
A autor também dá destaque àquelas cidades onde essa nova dinâmica social se desenvolvia, fundamentalmente Veneza no século XVI, Amsterdã no século XVII e Londres no século XVIII. A primeira já se destacava no mercado editorial desde o século XV, mantendo sua primazia no século seguinte, com aproximadamente 500 casas impressoras. Contribuiu muito para o sucesso comercial dos impressores de Amsterdã a diversidade cultural e ética da cidade: livros de diversas línguas eram produzidos e exportados para outras partes da Europa
Londres, por sua vez, ganharia destaque nesse negócio em um curto período de tempo. A habilidade comercial britânica se manifestaria também no mercado de livros e a capital inglesa contaria, em 1777, com 72 livreiros e impressores. “A expressão ‘the trade‘ [o negócio, o comércio] era aplicada aos livreiros como se fossem os negociantes por excelência”. Ao que parece, o sistema de comércio de livros e revistas por assinaturas, como modo de financiar as atividades impressoras, suriu e se desenvolveu primeiramente entre os britânicos.
Os periódicos como jornais e revistas, “gêneros literários que melhor ilustram a comercialização da informação”, começam a ser publicados a partir do século XVII e as notícias nessa época já eram vistas como mercadoria. Amsterdã publicava jornais em inglês e em francês, tornando o gênero jornalístico um sucesso imediato. O conteúdo ia desde cobertura de guerras (como a Guerra dos Trinta Anos e a Guerra Civil na Inglaterra) até críticas abertas à Igreja católica ou ao governo francês.
Revistas de conteúdo acadêmico também começaram a ser publicadas no século XVII, normalmente com periodicidade mensal ou bimestral. O sucesso e a viabilidade comercial desse tipo de publicação se demonstra, por exemplo, pelo fato do Journal des Savants parisiense ter sido logo pirateado em Amsterdã e sua fóruma imitada em Roma, Veneza, Leipzig e outras cidades.
Com o crescimento das produções literárias e da difusão de obras provenientes dos mais diferentes meios, surge a necessidade de criação de obras de referência. Começam então a aparecer os dicionários e enciclopédias.
Peter Burke conclui que essa economia do conhecimento estava essencialmente ligada ao desenvolvimento da sociedade burguesa, o que pode ser inferido a partir do seguinte excerto:
O contexto mais amplo da evolução nas publicações descritas acima, que podem ser resumidos como a “comercialização do livro”, constitui o que os historiadores vieram a chamar de “revolução do consumo” ou “nascimento da sociedade de consumo” no século XVIII. [...] A “comercialização do lazer” e o “consumo de cultura” formam parte importante dessa revolução, incluindo a popularização do teatro, óperas, e exposições de pinturas, abertas a quem quer que se dispusesse a pagar a entrada.
História do presente?
O mais interessante em tudo isso é pensar naquilo que o autor diz no início do capítulo:
Qual, exatamente, a novidade de tudo isso?
O desenvolvimento da lógica capitalista no mundo moderno — o mundo moderno já tem séculos! — orienta-se no mesmo sentido do desenvolvimento das forças produtivas (os meios sociais de produção e divulgação) do conhecimento.
Alguns caracterizam o período histórico mais recente (as décadas? a curta-duração?) como sendo a “era do conhecimento” ou a “era da informação”. Alguns, inclusive, utilizariam-se dessa característica histórica como base para afirmar que vivemos num período pós-moderno.
Voltando à pergunta de P. Burke, algumas considerações:
De fato, caracterizar uma sociedade como sendo da informação ou do conhecimento seria redundante, pois a sociedade e mesmo a comunidade são, necessariamente, estruturadas em informação e conhecimento. Nesse sentido, radicalizando um pouco, poderíamos dizer que nem o Moderno é tão moderno assim.
A comparação cronológica, contudo, nos permite estabelecer alguns marcos mais ou menos significativos de transformação. A criação de redes potencialmente dinâmicas de comunicação relaciona-se historicamente ao desenvolvimento das atividades econômicas ligadas ao comércio. Comércio é também troca de informação! A complexificação das redes de comércio na Europa, no período histórico que convencionou-se chamar Renascimento, foi a infra-estrutura necessária para que se estabelecessem redes de troca de informação e conhecimento, responsáveis pela difusão do material necessário para que as revoluções sociais, culturais e econômicas viessem a ter início em fins do século XVIII.
Na resenha anterior, omiti a terceira epígrafe do ensaio, pois acredito que ele tem melhor lugar neste ponto. O autor é Karl Marx:
As idéias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência são meras expressões da influência da livre-concorrência no domínio do conhecimento.
A concorrência na exploração do mercado impressor do período abordado no texto é várias vezes destacado. O Iluminismo ele próprio é tratado como um negócio, o negócio dos livros e do conhecimento; the trade para os britânicos. A ética calvinista da Amsterdã do século XVII casa-se perfeitamente ao espírito de uma sociedade que se molda com base numa noção de indivíduo que se realiza pelo sucesso econômico.
O saber, o domínio no mundo com base no conhecimento torna-se imperativo a partir de então. Outro ponto omitido na resenha é o apontamento que Peter Burke faz acerca do verbete sobre agricultura, escrito por Diderot:
como sempre interessado na técnica, escreveu o verbete sobre agricultura na Enciclopédia, discutindo, por exemplo, as inovações do fazendeiro inglês Jethro Tull e assim trazendo-as para o conhecimento de um público mais amplo
Nota-se que mesmo a crença na emancipação humana com base no conhecimento estava ligada à circulação de informações que permitissem aperfeiçoamentos técnicos e econômicos. Fica claro que o potencial de circulação do conhecimento é determinado pela infra-estrutura econômica de uma dada sociedade. A modernidade e as técnicas de impressões de livros estão intrinsecamente relacionados.
Com esse dado pretendo concluir este artigo propondo uma reflexão para os tempos atuais: como poderemos construir uma sociedade livre se o conhecimento for, por meio de interesses de poucos e seu poder de influenciar a justiça, considerado como propriedade privada?
A infra-estrutura da internet nos aponta um novo patamar econômico e o grande capital já vêm buscando formas de explorá-la. Passamos justamente por um momento em que o avanço das forças produtivas leva a contradições com as formas jurídicas dominantes. Como reformadores e/ou revolucionários sociais poderemos nos apropriar dessa infra-estrutra para nos aproximarmos mais do sonho de justiça e liberdade?




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