A radiodifusão e o protocolo da internet: reflexos sociais
O domínio físico dos elétrons por meio de engenharia produziu indiretamente profundas transformações na cognição e comunicação humanas no final do segundo milênio d.C. do calendário ocidental.
Obviamente que as relações entre mudanças técnicas e mudanças culturais podem ser verificadas e estudadas em quaisquer sociedades de outros tempos e lugares. No entanto, os tempos modernos do mundo em globalização, fundamentalmente os tempos pós-revolução microeletrônica, emergem com uma dinâmica qualitativamente diferente da dinâmica anterior: as barreiras de tempo e espaço tornam-se potencialmente nulas em algumas esferas da produção cultural humana.
O século eletrônico desenvolve uma infra-estrutura de difusão de sons e imagens que propicia mudanças radicais nas práticas humanas e na significação dessas práticas.
Rádio e televisão não apenas transformaram as relações entre as pessoas como também transformaram a percepção dessas relações entre as pessoas e por elas mesmas.
O uso político das emoções e experiências humanas já era levado a cabo pela propaganda nazista por meio de rádios e alto-falantes. O uso mercadológico das emoções e experiências humanas criou tanto os consumidores de McDonald’s quanto a rebeldia hedonista da juventude.
O desejo de experientações com o corpo e com a linguagem teria sido socialmente possível se não houvesse previsamente difundido um aparato de produção de desejos de experimentação (marketing de consumo)? A televisão nesse caso é a tecnologia principal, embora não a única.
Nas últimas duas décadas uma nova tecnologia eletrônica vem se expandindo: a computação pessoal aliada à internet. De que forma esse novo suporte tecnológico se aproxima e de que forma se distancia dos suportes dominantes no século passado, no que tange à sociabilidade entre produtores e consumidores de informação?
Embora o fenômeno já tenha se iniciado há um tempo considerável partindo-se de um ponto de vista subjetivo, de um ponto de vista que se proponha mais histórico e objetivo constata-se que é difícil qualquer caracterização definitiva.
No entanto, é possível enumerar algumas diferenças qualitativas importantes entre a radiodifusão de sons e imagens e o protocolo da internet. Resumidamente:
- Hieraquia e verticalidade tendendo à anarquia e horizontalidade.
- Conteúdo de relevância social disputando espaço com conteúdo de relevância predominantemente mercadológica.
- Rigidez e centralização no controle e produção de conteúdo perdendo espaço para formas fluidas e descentralizadas de tratamento de conteúdo informacional.
- Reestruturação da topologia da rede: criação de pontos de consulta e produção de informação em lugar de pontos exclusivos de consumo.
Estas são observações e caracterizações bastante gerais. Lanço como proposta de debate e reflexão, não como assertivas de constatação e certeza. A questão que deixo é a seguinte: de que forma essas novas tecnologias podem nos ajudar a superar socialmente o o consumismo sinestésico e a política anestésica em direção à produção colaborativa e à política catártica?









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