Mozilla Drumbeat em São Paulo: um debate sobre Open Web

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No dia 22 de março ocorreu na Casa de Cultura Digital o evento Mozilla Drumbeat. Idealizado pela Fundação Mozilla, que apoia o desenvolvimento do navegador Mozilla Firefox, o evento tinha como objetivo promover um espaço de discussão cujo tema era a Open Web.

Além disso também foram apresentados projetos de alguns participantes do evento, como a P2PU e WebMadeMovies.

Mas é sobre a questão do conceito de Open Web que quero escrever este texto.

Do fenômeno à abstração conceitual

Uma busca pelos termos open web no Google retorna entre os primeiros resultados, além de uma empresa de servidores Linux, links para o W3C, o Web Standards Project e a Open Web Foundation.

The Open Web Foundation is made up of individuals and sponsoring companies who believe that the open web is built on technologies that are created in the open by a diversity of contributors, and which free to be used and improved upon without restriction. The Foundation is working towards creating a home for community-driven specifications. Following the open source model similar to the Apache Software Foundation, the Foundation is aimed at building a lightweight framework to help communities deal with the legal requirements necessary to create successful and widely adopted specification.

Não conhecia exatamente tal fundação, e acho que pensei pela primeira vez na expressão Open Web no formulário de casdastramento para o evento.

Durante o debate, quando foi colocada a questão para os presentes “O que vocês sabem ou entendem por open web?”, percebi que não havia um consenso acerca do significado do conceito.

Pelo contrário, o que havia era bastante confusão. Alguns puderam imaginar uma open web onde tudo seria permitido, levando a problemas como invasão de privacidade por parte de empresas. Outros não viam problemas em por exemplo receber propaganda direcionada com base em dados de consumo coletados por sua interação na rede. A ideia do software-livre foi lembrada e citada como bom exemplo para alguns, ainda que criticada por outros, que lembraram que a designação “software-livre” não impede que partes do conhecimento acerca do software dito “livre” esteja controlado por interesses de companhias não tão livres assim. O Google, sempre um exempo polêmico e uma empresa cheia de ambiguidades, foi lembrado naquele momento.

Meu ponto de vista (mal expresso então, um pouco pela confusão das visões e pela minha própria falta de reflexão sobre o assunto) sobre a questão é a seguinte: o problema da web e o desejo dos que a querem como um espaço aberto é, de certa forma, semelhante às principais questões de governo e política do mundo moderno e industrial.

Liberdade horizontalmente ajustada ou controle verticalmente exercido são elementos de uma tensão caracterítica da vida moderna, da Idade Moderna (pensando numa modernidade de longa duração, de séculos).

Da abstração conceitual ao fenônemo: um outro exemplo

A Revolução Industrial criou a assim chamada classe operária, ou proletariado industrial, termos clássicos da economia política. A desagregação, na Europa, do sistema social anteriormente existente gerou para aqueles seres humanos desterrados situações de miséria que infelizmente ainda encontramos em lugares do chamado mundo subdesenvolvido (ou em desenvolvimento).

A necessidade de sobrevivência numa economia selvagem e num “ecossistema” político onde não havia muita consideração pela vida dos pobres (produzidos pelo próprio desenvolvimento dessa nova economia) levou ao surgimento de iniciativas de solidariedade entre os trabalhadores, como os sindicatos e as caixas de assistência (de aposentadoria).

software-livre-comunismoDo mesmo modo que a criação de um mercado internacional padronizava as formas de exploração do trabalho e obtenção de lucro, os agentes da produção – ou seja, as pessoas trabalhadoras – aos poucos padronizavam sua forma de organização e luta por sobrevivência. Desse processo surgiram “standards” como as Associações Internacionais de Trabalhadores e “projects” como o Manifesto do Partido Comunista e a Comuna de Paris.

Transparência, democracia e direitos do sujeito

Radicalizando um pouco menos, uma vez que o tema do Comunismo costuma eriçar os pelos de alguns que acham que isso significa que algum pobre vai poder levar sua televisão, pensemos em questões políticas mais consensuais.

No sistema dito democrático atual, algumas questões técnicas e filosóficas a respeito do governo costumam estar presentes nos debates políticos.

Um deles é o tema da transparência dos procedimentos do Estado, sejam burocráticos, financeiros ou de outra ordem. No entanto, a privacidade dos cidadãos não deve ser comprometida: o Estado não pode invadir a vida das pessoas, ainda que com o pretexto de exercer um “melhor governo”.

Nesse sentido, a questão da democracia e seu aperfeiçoamento adquirem importância. Afinal, um melhor governo não deve ser buscado do ponto de vista do melhor funcionamento do Estado enquanto uma técnica de poder instituicionalizada, mas do melhor funcionamento do Estado enquanto ambiente político onde as pessoas possam exercer sua cidadania, sua vida cívica.

O que isso tem a ver com internet e Open Web?

Alguns defendem que o Estado deve ser democrático. Outros acreditam que democracia não é bom, que uma ditadura faz o Estado funcionar melhor.

Alguns lutam para que os procedimentos do Estado sejam realmente públicso. Outros, provavelmente por deverem alguma coisa para o público, sentem receio de tudo isso.

Alguns acham que os meios e técnicas de produção devam ser livres, outros acham que devem ser propriedade privada nas mãos de uns poucos.

No fundo quando falamos de problemas específicos do cyberespaço não estamos falando de algo tão específico assim, mas falamos de problemas centrais, fundamentais e essenciais do mundo moderno (que atualmente é antes hiper do que pós-moderno): o governo. Lembremos que cibernética e governo são palavras com raízes etimológicas comuns.

E a natureza dos problemas que ambas as questões nos propõe também são comuns.

liberdade-expressao-internetPois alguns defendem que a web deve ser aberta. Mas alguns defendem que ela deve estar submetida a controle.

Alguns defendem que os padrões e protocolos da web devam ser abertos. Outros, que se acostumaram a ganhar muito dinheiro com padrões e protocolos fechados, sentem receio de tudo isso.

Alguns defendem que os softwares e as linguagens devam ser devam ser livres, outros acham melhor que estejam sob licensa proprietária, nas mãos de poucos.

Enfim, o mundo virtual não está tão longe do real – muito pelo contrário! – e alguns problemas que podem nos parecer inteiramente novos guardam espantosas semelhanças com problemas do passado.

Devemos estar atentos a qualquer ataque que possa vir dos setores elitistas e conservadores da sociedade. Devemos criar formas de nos defender desses ataques. Mas também devemos ter a consciência de que essa luta não é apenas um luta de defesa da internet, como um coisa à parte do resto da história. Lutamos para construir um mundo mais justo e mais livre, e a web e o pessoal que desenvolve aplicativos para ela terá uma missão histórica importantíssima, muito maior do que eles devam imaginar.

Data da última edição deste texto: 24/03/2010

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